QUARTZO TITÂNIO

I

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

Este fora o lema que governara desde sempre o seu dia a dia.

A claridade intensificava-se num amanhecer cinzento, onde as nuvens tristes davam um ar pesado à imensidão do Lago Ontário que se avistava lá do alto do apartamento localizado quase no topo de uma das muitas torres de condomínios luxuosos de Toronto.

Encostado à parede adjacente à grande janela do quarto, ele observava o horizonte ao mesmo tempo que via a sua imagem reflectida no vidro. A sua visão desfocou o fundo para se centrar no reflexo, no rosto a ganhar rugas, o cabelo grisalho onde a tonalidade escura parecia perder cada vez mais terreno para a clara. Por mais que os músculos lhe dissessem o contrário, ele era um homem de meia-idade.

Baixou o olhar para o peito nu. Também ali os pelos brancos cresciam como ervas em vasos de flores. Sinais de velhice que procurou rebater, arrancando as linhas albas... Não valia a pena, por cada um que vencesse, outros dois cresceriam. Estava a ficar barrigudo, apesar de ter uma vida pouco sedentária. Mais um sinal da idade? Talvez.

Tornou a olhar para o exterior, a atenção arrebatada para uma pequena aeronave em linha de aterragem com a pista do Billy Bishop, um pequeno aeroporto situado na Centre Island, uma das ilhas frontais à cidade. O ruído dos motores mal se ouviu, tal era a capacidade isolante dos vidros do apartamento.

Perdeu-se em pensamentos, cego no manto de nuvens. Iria chover? Que lhe interessava isso? Uma embarcação afastava-se do porto, talvez para navegar nos canais entre as ilhas. Deixou de registar a vida lá fora. Pensou em si, no facto de estar a chegar aos cinquenta anos. A angústia dos últimos tempos regressou. Seria a tão falada crise da meia‑idade?

Não se sentia velho. Nem mesmo quando se via ao espelho. Sentia‑se... Como se sentia ele? Não sabia explicar. Era uma angústia profunda que lhe vinha sabe-se lá donde, algures dum lugar profundo na sua alma.

— Bom dia! — disse uma voz ensonada.

A sonoridade rouca feminina puxou-o para a realidade do interior. Na cama, uma cabeça meio encoberta pela cabeleira escura emergia entre os lençóis.

— Bom dia! — retribuiu ele num tom neutro.

O rosto estremunhado cravou os olhos nele. Ensonados, procuraram habituar-se à luz exterior.

— Estás bem?

Ele anuiu sem dizer uma palavra. Percebeu que não lhe apetecia falar. Voltou a encarar o exterior, o ambiente tão deprimente quanto a sua alma.

— É bem capaz de chover. — disse a voz feminina.

Era aquele tipo de frase que se dizia só para não se ficar calado.

Sentindo o movimento dela na cama, ele rodou novamente a cabeça e observou-a, vendo uma mulher escultural a sair dos lençóis completamente nua.

Sem preocupação em disfarçar a noite mal dormida, por culpa dele, ela desfilou todas as curvas do seu corpo perante o seu olhar, formas que pareciam ter sido criadas por um Leonardo Da Vinci. Não deveria ter mais de trinta anos e a expressão era intensa, como quem está sempre pronta a saciar o parceiro. Parou junto dele e deu-lhe um beijo nos lábios.

— Posso usar o duche?

— Estás à-vontade.

Ela sorriu, mordiscando o lábio.

— Queres fazer-me companhia?

— Obrigado. — recusou cortês.

A mulher assentiu sem demonstrar decepção ou satisfação. Virou costas e deslizou pelo soalho silencioso como se fosse uma pluma, desaparecendo na porta da casa de banho privada.

Ele retornou à observação da paisagem e a mente a divagar nas recordações, como um satélite velho que sai de órbita e perde a utilidade.

O som da água a correr foi a única coisa que se ouviu por ali. Ele nem se apercebeu disso até ao momento em que a mulher, que fora completamente sua nessa noite, desligou o chuveiro.

Viu as horas no smartwatch preso no pulso esquerdo. O seu cérebro reviu a agenda para esse dia. Teria uma manhã e uma tarde preenchidas, nada a que não estivesse habituado. Pegou no smartphone e abriu o email para ver se havia novidades. Algumas mensagens novas, nada de especial, e muita porcaria publicitária não solicitada. Posou o aparelho sobre a cómoda de linhas modernas no exacto momento em que ela saiu da casa de banho.

Não era assídua da casa ou da cama dele, mas dava a entender que não fora a primeira vez que ali estivera. Surgiu tal como chegara na noite anterior ao apartamento, saia curta e casaco formal que ele sabia só esconder o sutiã. Penteara o cabelo preso num rabo-de-cavalo para disfarçar que não o lavara no duche. O rosto não estava maquilhado, o que não lhe tirava um grama de beleza. Sob o olhar atento dele, sentou-se na cama, cruzando as pernas de forma cativante e calçou os sapatos de salto alto. Por fim, levantou-se, encarando-o numa mistura de humor e sedução.

— Calculo que não me tenhas feito o pequeno-almoço.

— Nem para mim costumo fazer.

— Então, está na hora de ir andando.

Ele não a demoveu, assim como ela não arredou pé. Faltava o último acto. Ele pegou na carteira e retirou algumas notas de cem dólares. Ela recebeu-as com agrado. Afinal, tudo não passava de uma transacção comercial, uma profissional do sexo que recebia o pagamento pelo empenho da noite intensa que proporcionara ao seu cliente.

— Queres que volte, logo? — sugeriu, guardando as notas na pequena malinha que usava pendurada no ombro.

— Quando quiser repetir, eu ligo-te. — contrapôs ele sem qualquer emoção.

Ela deu-lhe um último beijo e foi embora.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Logo que ouviu a porta do apartamento a fechar, ele caminhou para a casa de banho privativa do quarto, sentindo ainda o cheiro do perfume dela ali. Havia uma névoa ténue no ar e o ambiente era meio abafado, resultante do duche exageradamente quente que ela tomara. Quase de forma automática, enfiou-se na cabine e abriu o chuveiro, deixando a água quente tombar-lhe sobre o corpo.

Comprar amor, como ele lhe chamava, era o mais fácil. Claro que não comprava amor, estava a comprar sexo. Não havia qualquer amor envolvido naquela situação, a menos que se considerasse o amor delas às notas que recebiam. Não era qualquer uma que passava a noite com ele, não era qualquer prostituta que obtinha aquele grau de confiança. Houve alturas em não se preocupava com isso e contratava uma qualquer que lhe despertasse desejo. Um quarto de hotel, duas ou três horas, e estava resolvido. Porém, a idade cansou-o disso. Preferia fornecedoras habituais ao invés de pagar à primeira puta que lhe aparecesse. Por isso, agora, tinha uma lista com uma dezena de nomes, mulheres com idades entre os vinte e oito e os trinta e três anos a quem ele ligava quando queria sexo e companhia.

A água massajava-lhe o corpo, percorrendo-lhe a pele como as mãos e os lábios de uma concubina eficiente. Pagar por sexo era o mais cómodo, evitava cobranças, evitava discussões. Ele estava a pagar, a pagar bem, e havia um acordo tácito de que a palavra "não" era proibida. Faziam tudo o que ele queria, quando ele queria. E mais importante de tudo, nunca o rejeitariam.

A rejeição era o pior numa relação, numa paixão. O embate violento quando a pessoa que nos provoca um formigueiro no estômago, nos faz perder o apetite e o sono, nos acorda para a realidade de que não quer o mesmo que nós...

Aconteceu-lhe uma vez na vida. Há... Quantos anos foram? Foi antes de vir para o Canadá, por isso, já lá iam quinze ou dezasseis anos. Sim, estivera apaixonado, perdidamente apaixonado. E nem sequer fora rejeitado, pelo menos, não até certa altura. Amara aquela mulher com toda a essência do seu ser. Para quê? Para um dia ver o tapete ser-lhe puxado debaixo dos pés e ele cair com estrondo no chão da rejeição. Não precisava disso, não precisava de relacionamentos, não queria envolvimentos sentimentais com ninguém. Nada como pagar para ter uma mulher...

Então, porque sentia ele aquela angústia? Aquela solidão...

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

Foda-se! Então, onde se compra o medicamento para o que estava a sentir? Na verdade, nem ele sabia interpretar o que o perturbava.

Olhou-se ao espelho. Barbeara-se após o duche, penteara o cabelo grisalho e passara creme no rosto. Bolas, quando um homem se preocupa em passar cremes antienvelhecimento no rosto, algo está a padecer em nós. Vestiu uma das suas camisas caríssimas e o um dos seus muitos fatos Ermenegildo Zegna. Não gostava de usar gravata, mas ia ter algumas reuniões importantes. Calçou um dos pares menos caros da Louis Vuitton que tinha e sentiu-se pronto.

O quarto dava para um átrio quadrado com mais três portas, iluminado pela claridade proveniente da enorme sala do apartamento, cuja parede oriental era completamente de vidro e com acesso a uma varanda larga com vista para o Lago Ontário. As três portas correspondiam a mais dois quartos inabitados e uma casa de banho geral para uso das visitas inexistentes da casa.

Ele saiu com o casaco do fato na mão, tendo o cuidado de não causar qualquer vinco. Avançou para a sala com a atenção no ecrã do smartphone, lendo algumas das notícias do dia.

A sala era composta por um gigantesco sofá em U, o qual fora colocado frontalmente com um ecrã de proporções bíblicas, fino como uma placa de gesso cartonado e equilibrado num tripé sobre um móvel de um metro de altura. Para lá deste, uma mesa rectangular em vidro para refeições que nunca aconteciam, acompanhada por meia dúzia de cadeiras confortáveis raramente utilizadas. O espaço prosseguia, sempre acompanhado pelos vidros que transformavam a parede numa espécie de tela fotográfica da maravilhosa vista do lago. Após a mesa, um balcão, uma espécie de ilha com um tampo em mármore claro, delimitava a divisão entre sala e cozinha. Junto a este, três bancos denunciavam ser ali que as escassas refeições eram ingeridas.

A cozinha era digna de um filme, tinha quase um aspecto futurista. Não faltava lá nada de aparelhos e equipamentos, mas para ele bastaria ter as portas dos armários. O uso que dava àquele espaço era um sacrilégio para qualquer chef. Os seus olhos procuraram a máquina de café, seria a única coisa a que se daria ao trabalho. O médico já o alertara várias vezes para uma alimentação mais saudável, inclusive que parasse de sair de casa sem tomar o pequeno-almoço. Ele não mudara nada.

Vivia sozinho, algo a que se habituara de tal forma que já nem considerava a possibilidade de ter outro ser humano a partilhar o seu espaço. Contornou o balcão e dirigiu-se à máquina do café. Porém, o som do telemóvel travou-o. Reconheceu o número. Era o seu advogado.

— Bom dia, Matt! — cumprimentou sem entoação.

O advogado era o seu homem de confiança para todos os assuntos legais, pago a peso de ouro, semanalmente, muitas vezes para nem precisar dele.

— Bom dia, Gabriel! — disse a voz austera do outro lado. — Já tenho o contrato que me pediste para analisar. Para quando precisas de um parecer? Até ao final da semana...

— Esta tarde, Matt. Preciso de um parecer até ao fim da tarde.

— Ok.

Desligou. Desistiu de fazer o café. Não queria perder mais tempo.

Gabriel era o seu nome, o nome daquele homem de meia‑idade que vivia sozinho num luxuoso apartamento em Toronto com vista para o lago. Viera para o Canadá em trabalho, quinze anos antes, com uma proposta milionária para agenciar jogadores profissionais. Naquela altura, o seu rendimento já era fantástico, mas incomparável com a fortuna que fizera nos anos que se seguiram e que continuava a fazer. Ele era, apenas e só, representante de jogadores da MLB, a liga profissional de basebol, da NHL, a liga profissional de hóquei no gelo, da NBA, a liga profissional de basquetebol e ainda tinha alguns contactos privilegiados na NFL, a liga profissional de futebol americano. Por isso...

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

O trânsito citadino estava normal, nem mais nem menos que noutros dias. Gabriel conduzia um Ferrari F8 Tributo, automóvel que envergava o tradicional encarnado da marca italiana e chamativo como uma loura de minissaia num bar. Pouco antes de parar num semáforo, o telemóvel tornou a chamar. O sistema de áudio calou a playlist com as suas músicas favoritas e fez ecoar o toque estridente. Ele carregou no botão do volante que atendia as chamadas.

— Que me dizes a um jogo dos Blue Jays, logo à noite? — convidou a voz que saiu dos altifalantes, sem que antes houvesse um cumprimento.

Teve vontade de dizer que os Blue Jays eram a equipa mais imprestável de Toronto, mas não convinha dizê-lo a um importante director dessa mesma equipa. Os Toronto Blue Jays eram a equipa profissional de basebol da cidade.

— Não sei. Qual é o motivo?

— É preciso um motivo para ver os nossos campeões?

Alguém lhe explicasse que para ser campeão era preciso fazer aquilo... como se diz... ah... Ganhar? Pois, ganhar.

— Eu conheço-te. Esse convite tem água no bico.

— Ok, ok. Temos interesse em... Prefiro não falar por telefone. Queria conversar contigo sobre isso.

— Tudo bem. Ligo-te mais tarde, a confirmar.

Quando desligou, Gabriel já circulava na Bay Street rumo a norte. Com a celeridade que o trânsito lhe permitiu, virou à direita na Adelaide Street e alguns metros mais à frente, virou à esquerda, embrenhando-se no parque automóvel subterrâneo do Bay-Adelaide Centre onde se localizava o seu escritório.

Apesar de o Bay-Adelaide Centre ser um edifício de escritórios de grandes empresas, algumas a ocupar pisos inteiros e mais que um andar, Gabriel ocupava apenas um pequeno sector para o seu negócio, num dos pisos intermédios, partilhado com mais algumas pequenas empresas, um espaço com um gabinete privado, sala de reuniões e recepção. Contudo, fizera os possíveis para que a sua localização fosse a esquina do edifício, o que levava a que o seu gabinete tivesse duas paredes em vidro com vista para a cidade.

A recepção era composta por um balcão em madeira com metro e meio de altura, onde um jovem recebia quem entrasse, atendia o telefone, recepcionava o correio e apontava recados. Quando Gabriel procurara a pessoa para ocupar aquele lugar, quis acima de tudo que fosse eficiente, organizada e trabalhadora. Mas, preferencialmente, um homem. Para si, havia coisas que não se misturavam, tal como o trabalho e o prazer, e a eventualidade de ser secretariado por uma funcionária esbelta poderia colocar isso em causa. Para além disso, simpatizara com o rapaz na entrevista, já que demonstrara ter um vasto conhecimento de desporto.

— Bom dia, Francis! — cumprimentou ao entrar.

Francis era natural do Quebec. Escusado será dizer que o seu desporto favorito era o hóquei no gelo. E não escondia o ser fervor em tornar a ver os Nordiques a disputar jogos na NHL. Deveria ter uns trinta anos, envergava roupas formais que nada pareciam ter a ver com ele e o cabelo estava sempre muito bem penteado. O rosto era simpático sem perder a expressão profissional.

O gabinete de Gabriel era amplo e espaçoso. A sua secretária situava-se na única parede que não tinha janelas nem porta, apenas um armário com gavetas, um pequeno bar, onde Gabriel guardava algumas garrafas de whisky, e uma estante com inúmeras fotos dele com muitos jogadores mundialmente conhecidos, algumas das maiores estrelas do desporto norte-americano. Qualquer um deles saberia bem quem era Gabriel e uma boa fatia percentual daqueles desportistas deviam-lhe os melhores contratos da sua carreira. A secretária era composta por um tampo robusto de madeira escura, sempre muito bem arrumada, quase sem pastas ou papeis soltos e apenas com o laptop solitário. Entre a estante e a mesa, um cadeirão confortável. Ele escolhera aquele posicionamento para poder ficar virado de frente para os vidros enormes que lhe permitiam ver o exterior de edifícios empresariais. No que sobrava de parede onde se localizava a porta do gabinete, somente um sofá longo e uma mesa rasa de apoio.

O estado de espírito sombrio permanecia em si. Numa passada lenta, caminhou pelo espaço até aos vidros, ficando a olhar para a rua, vendo pessoas e carros a movimentarem-se lá em baixo, sempre em stress. O silêncio à sua volta parecia irreal naquele cenário protegido pelas janelas insonorizadas que bloqueavam o ruído daquela que era, para si, uma espécie de mini New York. A recordação da cidade, quando ali chegara uma década e meia antes, veio-lhe à mente. Já era uma cidade com o rebuliço dos grandes centros urbanos mundiais, mas tinha agora muitos mais edifícios a arranhar o céu e a vida empresarial crescera exponencialmente, desde esse dia. O Canadá era outro mundo, mais evoluído, mais civilizado. Tivera alguns contratempos a instalar-se, mas gostara do país, da cidade e das pessoas logo ao primeiro momento.

Os últimos tempos em Portugal haviam sido terríveis. Profissionalmente as coisas corriam bem, já era um agente desportivo com alguma influência e já fazia bom dinheiro com isso. Quando era novo, jogara hóquei em patins. Nunca fora muito bom nos estudos, excepto em Matemática e Inglês, disciplinas que pareciam talhadas para si. Apesar de ter algum jeito para usar o stick, cedo teve noção que o hóquei nunca poderia ser um modo de vida, o seu ganha-pão. Por isso, abandonou a modalidade quando deixou de estudar e começou a trabalhar como vendedor de carros num stand de automóveis. Tinha jeito para os números, sabia fazer negócios e adorava ganhar dinheiro. Passou para o ramo imobiliário e a ganhar ainda mais. Contudo, foi quando surgiu a oportunidade de trabalhar no mundo do desporto a representar jogadores que descobriu a sua verdadeira vocação.

Começara com o agenciamento de jogadores de equipas secundárias e em modalidades com menor expressão que o futebol. Nunca desistiu. E conforme os seus representados iam evoluindo na carreira, também o seu nome se projectava no meio. A sua carteira de agenciados engrandeceu e cada vez com mais jogadores de futebol. Antes dos trinta anos, Gabriel já falava regularmente com os presidentes dos principais clubes portugueses e alguns dos maiores da Europa.

O futebol sempre fora o seu desporto de eleição. Em miúdo chegara a sonhar ser jogador da bola, mas rapidamente percebeu que os seus pés eram como duas tábuas quando encontravam uma bola. Daí ter ido parar ao hóquei. Sendo o futebol o seu favorito e também a modalidade onde mais se movimentava, foi surreal encarar a proposta que lhe apresentaram para trabalhar no Canadá como agente de jogadores profissionais. Em Portugal era um nome de primeira linha. No Canadá, seria apenas mais um a trabalhar para uma grande empresa com outros seus iguais. Na altura, sentiu-se a regredir na carreira e esteve prestes a recusar, apesar da perspectiva de rendimento superar em muito aquilo que já conseguia amealhar. Contudo, outros factores o levaram a tomar a decisão que tomara, quinze anos antes.

O telemóvel tocou, despertando-o das recordações.

— Estão a tentar lixar-me, Gabriel.

— Calma, Tiivu. — pediu, reconhecendo a voz. — Que aconteceu?

Tiivu era um jogador finlandês de hóquei no gelo que fora contratado pelos Toronto Maple Leafs a uma equipa sueca. Os Maple Leafs eram a principal equipa de hóquei da cidade, uma das mais históricas da NHL e a segunda com mais títulos de uma competição com mais de cem anos e a mais emblemática de todo o Mundo daquela modalidade. Gabriel era o empresário de Tiivu e fora ele quem tratara da sua transferência para a América do Norte. Segundo o hoquista, sem esconder a irritação na voz, o clube e o treinador estavam a ponderar enquadrá-lo nos Toronto Marlies. Isso significava que, em vez de jogar na melhor liga mundial, iria jogar na equipa de reservas que competia naquilo a que os americanos chamavam uma minor league, a AHL, ou seja, uma espécie de competição de jogadores jovens a tentar provar que tinham lugar na NHL. Claro que Tiivu achava que nada tinha a provar.

Gabriel sabia que não fora aquilo que ficara acordado. Tiivu não se iria mudar para o outro lado do oceano para jogar nas reservas.

— Eu falo com o General Manager, Tiivu. — descansou-o.

O finlandês agradeceu, mais calmo, ciente que Gabriel resolveria a questão.

Desligou a chamada e guardou o aparelho no bolso. Irritava-o que os clubes não cumprissem os acordos verbais. Sim, aquilo não ficara escrito no contrato, fora conversado e os directores dos Maple Leafs concordaram que aquele investimento não seria para desperdiçar na AHL. Só que depois o treinador mudou...

Teria de tratar do assunto, telefonando ao General Manager e combinar uma reunião com ele. Aquilo não poderia ser resolvido a falar ao telefone. Gabriel adorava os Maple Leafs, era adepto da equipa desde que chegara ao Canadá. Mas, isso não o obrigava a aceitar o desrespeito para com os seus representados.

Tornou a olhar para a rua. Não estava com paciência para problemas ou resoluções. Comprometera-se e cabia-lhe a ele reivindicar a concretização das expectativas de Tiivu, só que o seu estado de espírito sugava-lhe qualquer vislumbre de paciência para a solução. Se quisesse, poderia comprar vários Ferrari iguais ao seu, mas não encontrava lugar nenhum onde conseguisse comprar... paciência.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

 

O vento soprava fresco pelas ruas da cidade.

Normalmente, faria aquele pequeno percurso de carro, mas estava a precisar de andar e o seu destino não era suficientemente longe para o demover de enfrentar a cacofonia populacional de Toronto. Saiu do edifício directamente para a Bay Street, orgulhoso com a constatação de como era uma pessoa importante ao ponto de conseguir que o GM dos Maple Leafs concordasse em recebê-lo ainda nessa manhã.

O Sol parecia despontar no céu cinzento, sendo que dificilmente conseguiria furar por entre os prédios. Só mesmo se incidisse numa linha paralela às longas ruas de Toronto é que o seu brilho chegaria aos passeios. Era por isso que as pessoas aproveitavam as praças e pracetas para permanecer alguns minutos.

O fluxo humano não era tão intenso como noutros horários. Mesmo assim, muita gente circulava por ali, desde turistas dos quatro cantos do Mundo até aos simples estafetas que transportavam documentos e encomendas entre empresas. A maior parte dos seres humanos traziam auriculares nos ouvidos, parecendo à primeira vista estarem a falar sozinhos. Na rua, Gabriel fazia o mesmo, caminhando com os seus Galaxy Buds inseridos nos ouvidos para atender as constantes chamadas de trabalho.

Estava com tempo. Numa passada calma, chegaria ao ScotiaBank Arena, onde seria recebido pelo GM, em dez a quinze minutos. O tipo recebia-o com brevidade, mas não de imediato, daí que tivesse estipulado trinta minutos entre o telefonema e a reunião. Gabriel fez um desvio na Kigs Street para passar pelo Starbucks na esquina daquela rua com a Yonge Street.

A loja estava praticamente vazia. Na sua frente, somente um casal de turistas e uma jovem com ar de universitária. Atrás do balcão trabalhava um jovem com trejeitos divertidos, extremamente afável. Gabriel comprou um Cappuccino dos grandes, pagando e sendo generoso na gorjeta.

Ao voltar ao exterior, a sua atenção foi captada para a porta do One King Hotel, no lado oposto da rua. Reconheceu a mulher sedutora de cabelos ruivos que saía do edifício, era uma das dez da sua lista. Ela vinha distraída, concentrada no telemóvel, mas algo a fez olhar para ele. Gabriel sorriu e acenou-lhe, não tinha qualquer complexo em reconhecer e ser reconhecido na rua por uma das suas profissionais do sexo. Ela retribuiu o sorriso e o aceno, tomando a direcção oposta à dele.

A depressão voltou a pressioná-lo. Podias comprar-lhe o corpo, o sorriso, os beijos, a companhia, o que ele quisesse... Fora isso, não estando a pagar, era um aceno cordial numa relação de fornecedor para cliente.

 

Na vida só precisamos de saúde e dinheiro. O resto compra-se!

Nem tudo se compra, talvez...

 

Evitou com esforço que a aura negra se abatesse mais sobre ele. Bebeu o líquido quente e apressou-se de volta à Bay Street, onde retomou a direcção sul. Prosseguiu numa passada constante, abstraído da sonoridade envolvente, uma vez que ligara a playlist do Spotify no telemóvel para o descontrair. Alcançou a Front Street, uma rua larga que se cruzava na sua frente. Aguardou que a sinalização dos peões lhe permitisse atravessar, cerca de dois minutos, e passou para o outro lado, encarando a enorme Union Station.

As muitas linhas ferroviárias entravam na estação, a oriente, por um viaduto que cobria a Bay Street na sua linha de alcatrão rumo ao lago, a qual só terminaria na Queens Quay, junto ao Harbour Square Park. Gabriel encontrou um aglomerado humano mais intenso, devido às obras, quando continuou por esse viaduto.

Toronto tinha aquela curiosidade, as passagens não eram simples passeios junto à estrada, eram semelhantes a corredores de edifícios, separados dos carros por vidros, o que protegia os transeuntes da poluição do ar e do som. Era mais um pormenor revelador de uma cidade com mentalidade muito evoluída.

Tornando a sair para o exterior movimentado de automóveis, Gabriel virou imediatamente à direita e ficou defronte da ScotiaBank Arena.

Naquele enorme pavilhão disputavam-se jogos de hóquei no gelo e basquetebol. A equipa de basquetebol eram os Raptors, a única canadiana a disputar a NBA, depois de Vancouver ter perdido a sua para Memphis. Gabriel também agenciava alguns dos jogadores dos Raptors e tinha muitas esperanças que, em breve, os Toronto Raptors se tornassem na primeira equipa canadiana a vencer a NBA.

Curiosamente, e sem ter essa intenção, parou exactamente sobre o emblema dos Raptors pintado no passeio daquela fachada. Confirmou as horas e avançou pelas portas giratórias.

 

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